Meus primeiros 25 Km – UAI Fast 25 Km

Meus primeiros 25 Km – UAI Fast 25 Km

Antes de conhecer o Edinho eu nunca tinha ouvido falar em ultramaratonas, muito menos sabia que era possível correr 235km direto e ainda por cima na montanha e com uma variação altimétrica para mais de 5.000 metros. Apresentada a essa realidade, aos poucos vou entendendo melhor como funciona a vida dos “monstros da montanha”.
Estive com ele apenas em 3 provas. Nos 80km do Xterra em 2014 ainda sem saber direito o que estava acontecendo e depois em Sabará-Outro Preto como apoio dos 106 km percorridos com direito a alguns poucos km como pacer. Para a prova dos 235 km surgiu a oportunidade de me inscrever na modalidade Fast 25 km e assim o fiz.

Meus primeiros 25 km

A corrida ainda me assusta. A minha experiencia com corridas começou com os tradicionais 5km no atero do Flamengo no Rio de Janeiro. Depois fiz uma prova de 6km, uma prova de 10km, uma meia maratona no ano passado e uma trail run de 12 km em Arraial do Cabo em novembro de 2015. E a minha experiencia com provas de corrida foi parando por ai. Esse ano, como já contei aqui, estou me dedicando aos treinos de triatlhon e encarei apenas uma prova de tri no Rio Triatlhon com direitos a 10km finais de uma sofrida corrida depois de nadar e pedalar.

Assim, os 25 km da prova me assustavam. Não me sentia preparada para enfrenta-los. Mas, a preocupação e ansiedade não eram tão grandes devido ao meu foco. Como estou concentrada em aprender sobre o tri e treinar para o IM 70.3 do final do ano, qualquer desafio intermediário não domina toda a minha atenção. Mas, na hora da largada tudo muda.

Alinhada com o Edinho em Passa Quatro prestes a enfrentar os primeiros 25 km da minha vida, até a viseira dos participantes da prova me assustavam. Me sentia uma criança no meio de um monte de feras. Mas o jeito era encarar. Já estava ali e tinha 6 horas para fechar a distancia pretendida até Itamonte. Faria isso nem que fosse caminhando o tempo todo.

A prova

 

Dada a largada eu e Edinho começamos juntos a correr. Começamos a prova num ritmo forte para mim. A ideia inicial era fazermos juntos esses 25 km de prova, mas de verdade eu sabia que isso não seria possível. O Edinho começa a prova cheio de gás e o ritmo dele é muito mais rápido que o meu.

Conseguimos manter o mesmo ritmo pelos primeiros 4 ou 5 km. A partir dai começaram as subidas e era impossível para mim manter o pace entre 5:50 e 6:20 min/km. Pedi para o Edinho se adiantar que a partir dali seguiria sozinha, não queria de modo algum atrapalhar a prova dele.

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Nesse momento dei uma quebrada na cabeça. Tenho parâmetros na corrida que são acima da média. O Edinho corre muito bem e é muito forte, minha treinadora também é uma excelente corredora e o Edinho tem vários amigos que mandam muito bem nessa modalidade. Quando vi que não seria capaz de acompanha-lo nem pelos primeiros 25km dos 235km que ele percorreria, me senti mal, apesar de ter consciência desde antes que isso aconteceria. Mas, a cabeça da gente funciona de uma forma muito estranha.

Passados uns 5 ou 10 minutos me dei conta de que não fazia nenhum sentido baixar a moral por não conseguir acompanhar o ritmo de um cara que está a 3 anos correndo ultramaratonas e se preparando para o UTMB. Continuei a correr aproveitando o meu ritmo e fazendo a minha prova.

A minha prova se resumiu a correr nos planos e caminhar nas subidas e descidas. Corria no meu ritmo normal nos planos e seguia trotando nas subidas até não conseguir mais, ai começava a caminhar. Achei que o tempo perdido nas caminhadas seria descontado nas descidas, pois normalmente consigo manter um ritmo forte nas descidas, mas infelizmente não funcionou. Fiz a primeira descida solta e comecei a sentir dores laterias no abdômen e fui obrigada a parar e caminhar regulando a respiração. E isso se repetiu em todas as descidas mais íngremes. Tentei segurar e descer mais devagar no trote e ainda assim as dores vinham. Me conformei e segui no trote, corrida e caminhada por todo o percurso.

Lá pelo km 17 e 18 comecei a pensar o que estava fazendo ali. O pé já estava doendo na parte de baixo dos dedos, o dedão já latejava na unha, o ombro incomodava e e as pernas pediam para eu parar. Mas, já tinha conversado com o Edinho tantas vezes que sabia que isso ia acontecer. Ele sempre me falava que nas ultras a dor vai migrando e passeando de um lado para o outro do corpo. Tá que 25 km é muito pouco para a experiencia de um ultramaratonista, mas para mim se tratava de um “ultradesafio”.

Segui aproveitando a paisagem e curtindo cada passo. Cruzei com muitas pessoas pelo caminho até que na metade da prova comecei a andar com um grupo de corredores que hora me ultrapassavam e hora eram ultrapassados por mim. Todos eles estavam correndo distancias maiores que as minhas.

Uma curiosidade desse tipo de prova é que as pessoas adoram um papo. Como elas correm num ritmo menor do que aguentam devido a longa distancia, conversar enquanto correm é uma atividade normal. Definitivamente esse não era meu caso. Estava correndo num ritmo puxado para mim e quando tinha que responder a alguém para não ser antipática diminuía ainda mais meu ritmo para aguentar andar ou correr e ainda falar.

Uma coisa que me chamou muita atenção também era como as pessoas se apiedavam de mim por estar ali correndo apenas 25km. quando me perguntavam para qual distancia estava inscrita e eu respondia os comentários eram do tipo “pelo menos você saiu de casa e está aqui” ou “eu comecei correndo 5km, você vai conseguir” e eu internamente ria. Para mim correr 25km era um grande desafio e estava muito orgulhosa de mim mesma de encará-lo.

Entre idas e vindas do apoio que estava se virando para me apoiar e apoiar o Edinho que acabou ficando muito na minha frente, consegui me hidratar e suplementar. Levava as milagrosas balinhas de carboidrato da Honey Stinger no bolso e sempre que conseguiam chegar até mim a Nina e o Gu, que estavam no carro de apoio, vinham com uma garrafa d’água e uma palavra de incentivo. Não faltou a ajuda também das equipes de apoio dos demais atletas participantes. Vendo o calor que fazia sempre ofereciam um gole de água geladinha que dava uma moral incrível.

Acompanhando o Garmin faltavam cerca de 2 km para o final da minha prova. Estava com dores, cansada, mas ainda tinha gás para um sprint final que estava sendo guardado para o ultimo km. Foi quando a Nina e o Gu chegaram me deram água e me falaram que faltava pouco para o final da minha prova. Como estou acostumada com o falta pouco do Edinho, achei que estavam falando dos 2 km que faltavam, foi quando em 500m cheguei ao meu ponto final. Acabei a prova cansada, com dores, mas um pouco surpresa e frustrada de não ter gasto a energia final num ultimo tiro de corrida.

Cheguei com 3h06min de prova, 23,700 km marcados no Garmin e com o apoio e o incentivo dos amigos Nina e Gu. Dei uma hidratada, tirei a roupa molhada de suor e segui com eles até o Edinho para os próximos km de apoio que faríamos junto da grande atleta da corrida!

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Aprendizados

  • A corrida de montanha é bem diferente da corrida de asfalto. A variação altimétrica possibilita um corre, anda e trota que muda tudo com relação a técnica e respiração;
  • A corrida em contato com a natureza é muito gostosa. Estar morta de cansada e poder se distrair com o verde das montanhas é de fato um privilégio;
  • A cabeça fala muito nesse tipo de prova. O cansaço muda, a vontade muda, a dor muda, mas o desejo de completar e atingir o objetivo traçado acompanha a gente o tempo todo;
  • Tudo depende do contexto em que se está inserido. Para os atletas da UAI 235,  25km na montanha com 500m de variação altimétrica é considerada uma prova Fast. Fora desse contexto e voltando ao meu mundo real 25 km é uma distância considerável, pois é mais do que meia maratona e por se dar na montanha, parece um grande desafio. Ou seja, tudo depende do referencial e cabe a nós mesmos definirmos nossos limites e superar nossos desafios pessoais;
  • A vontade de correr não passa. Ali naquele contexto correr um dia inteiro parecia normal e o desejo é de continuar. Até como apoio do Edinho tive vontade de entrar como pacer para correr diversas vezes; e
  • Respeitar os limites do seu corpo e saber a hora de parar também é um grande aprendizado. Conseguir respeitar isso, controlar as vontades e manter o corpo preparado para os treinos da semana foi um grande desafio.
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Seguir Bia Carvalho:

Criadora do @mulheresqueescalam. Se amarra nas atividades em contato com a natureza, seja velejando no mar ou escalando montanhas. Encontrou nos esportes uma terapia. Adora compartilhar e incentivar a prática de atividades saudáveis.

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