O Jalapão é Bruto – por Bia Carvalho

O Jalapão é Bruto – por Bia Carvalho

postado em: Bia Carvalho | 1

Lazer X Perrengue

Quando programo as minhas férias gosto de me aventurar. Muitos me perguntam, mas você não vai voltar mais cansada? Você não deveria descansar? E aí entra o dilema que poderíamos chamar de Lazer X Perrengue. Eu posso dizer que amo sentir prazer, mas que encontro ele em situações bastante adversas e assim me submeto a uma grande possibilidade de passar grandes perrengues. No Jalapão especialmente vivi o ápice da viagem perrengue, pois o Jalapão é bruto, mas posso dizer que foi uma das viagens mais incríveis que já fiz.

A liberdade de viajar de bike

O Jalapão é Bruto! E põe bruto nisso! Antes de encarar a trip não sabia muito bem o que essa frase significava, mas hoje ela faz todo sentido pra mim. O Jalapão é bruto porque a natureza do local é bruta. A paisagem quase intocada é de uma beleza singular. O jalapão é bruto porque ele precisa ser encarado com coragem de quem quer desbravar e conhecer a natureza como ela é.

O Cicloturismo no Jalapão

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O Jalapão é bruto - trecho de areia fofa - Bia Carvalho

O Jalapão por si só já tem na sua essência a brutalidade, imagina fazê-lo de bike? Isso pode tornar a sua experiencia ainda muito melhor e muito mais emocionante!

Quando escolhemos o Jalapão como destino das férias nunca passou pela nossa cabeça encarar um 4x4 e desbravar o local. Desde sempre encaramos o Jalapão como um destino de cicloturismo. Não sei bem por que. Talvez porque estivéssemos mesmo procurando um local para pedalar e na Adventure Sports Fair em São Paulo nos dedicamos a ouvir muitas palestras sobre cicloturismo e trocamos várias ideias legais sobre o assunto. Sei que o Jalapão surgiu e o cicloturismo também. 

Arrumamos a bike do jeito que deu, no tempo que tínhamos e partimos para nossa aventura.

A primeira aventura da trip 

Posso dizer que a viagem já chegou causando. Alugamos um local para ficar na noite que chegamos em Palmas. Completamente diferente do esperado o local era sujo, quente e estranho. Não via a hora de chegar no Jalapão. No dia seguinte o Lion, um amigão meu e do Edinho que de ultima hora topou encarar essa trip com a gente, chegou a Palmas e partimos para nosso destino. Ponte Alta. Lá daríamos início a nossa pedalada até a Pedra Furada. Mas, a bike do Lion chegou quebrada e os planos mudaram.

Equipe separada
Jalapão Bikepacking Sua Casa é o Mundo
Pausa para reabastecer - Edinho e Bia

O primeiro destino passou a ser a Cachoeira do Soninho numa empreitada de setenta e poucos km. No caminho, meu primeiro tombo! O que mais me machucou em toda a viagem. A bike caiu em cima de mim e pronto: um mega roxo na coxa esquerda e uma dor forte para me acompanhar. Mas, isso já estava no script. Continuei e não liguei para a dor que em poucos dias pararia de me incomodar. O primeiro real problema foi com relação ao tracklog que o Edinho havia pego do local. Pegamos um atalho sem querer que nos levou a um caminho péssimo. Muita areia, mato alto e um rio sem ponte. Tivemos que transpor tudo isso para chegar ao nosso destino. Passamos por várias pegadas de animais selvagens, não vimos quase ninguém passar por muitas horas, atravessamos um rio com as bikes, enfrentamos vários insetos e chegamos ao nosso destino no entardecer. E eu estava morta. Já aí comecei a pensar: será que o Jalapão é pra mim? Era só o primeiro dia! 

Será que vi uma onça?

Jalapão Bikepacking Sua Casa é o Mundo
Camping Selvagem - Rio Soninho

Não tenho resposta para essa pergunta. Só sei que nessa primeira noite acampando chegamos tarde para montar acampamento e fui tomar banho de rio enquanto o Edinho preparava o nosso jantar. Estava tomando meu banho quando na outra margem do rio eu vi dois olhos brilharem. Me assustei. Mas, não era momento para entrar em pânico. Não dava para ver nada direito e mal conseguia iluminar alguns metros com a minha lanterna de cabeça. Eu só podia estar delirando. Fingi que não vi, menti pra mim mesma afirmando veementemente que seria apenas uma impressão. Tratei de correr com o banho e voltar para perto do Edinho e esquecer essa história. Funcionou. Comemos e depois tive uma boa noite de sono.

No decorrer da viagem vim a saber que o local que estávamos tem bastante onça. O que só reafirmou que eu realmente vi os olhos do outro lado da margem. O que era? Nunca vou saber. Fico feliz de ter conseguido me enganar e manter a calma. Ao contrário do Edinho eu não tinha nenhum desejo de dar de frente com uma onça nessa trip.

A pedra furada

O segundo dia de pedal foi muito melhor. Acertamos o caminho e seguimos para o nosso destino depois de ter aproveitado bem o banho de Rio no Soninho e as fotos da queda d'água mais acima. Aproveitei para me alongar, fazer um pouco de yoga.

Chegamos na pedra furada no final do dia, encontramos o nosso amigo Lion, o Clovis, um fotógrafo muito gente boa da região, e curtimos juntos o pôr do sol. Que lugar lindo! A pedra furada tem uma energia incrível e uma luz maravilhosa.  

A pedra furada foi um dos lugares que mais gostei na viagem. Dormimos num camping selvagem debaixo de um céu muito estrelado. Fotografamos ao amanhecer e partimos para Ponte Alta.

Jalapao Bikepacking - Clovis Cruvinel

 

Pedalando no Jalapão 

Pedalar no Jalapão significa encarar muita areia, muito cascalho e muito sobe e desce. Toda a minha prática de pedal se resume a treinos de triathlon com uma bicicleta contra relógio. Pedalo quase sempre no plano e faço alguns treinos de subida para poder encarar algumas provas em que ela aparece no meu caminho. Ou seja, não entendo nada de mountain bike e enfrentar pedras e cascalhos em descidas não me parece muito agradável. 

Pedalei o tempo inteiro com uma bicicleta que além de ter um selim bastante desconfortável, o banco não parava na altura que eu colocava. Ele sempre acabava cedendo e eu pedalando com a perna encolhida. Além disso a minha bike tinha algum problema com água. Toda vez que agente atravessou um rio ou encarou alguma chuva a porcaria do freio começava a pegar. Se já não bastasse a dificuldade do terreno andar com o freio agarrando pode tornar as coisas ainda mais difíceis. 

Calor
jalapao e bruto sol
Bia pedalando no sol de meio-dia

Para completar essa aventura, tive um problema chato para pedalar. CALOR. Sério?! O Jalapão é muito quente e a água das minhas caramanholas não ficavam frescas nem por 15 minutos. Esqueci em casa meu camellback e me restou apenas caramanholas simples. A água fervia a ponto de parecer água de chá. 

Para se ter uma ideia, enquanto eu pedalava só pensava em chegar em algum lugar para beber qualquer coisa que não fosse água e muito menos água quente. Até sonhar com coca-cola eu sonhei. Para quem me conhece mais de perto sabe o que isso significa. Não gostava de coca-cola nem quando era criança. Não bebo refrigerante nenhum a muitos anos. Mas, no Jalapão eu sonhava com a coca e bebia guaraná sempre que encontrava no meu destino. Qualquer coisa diferente de água quente me dava um imenso prazer!

O Jalapão não tem árvores grandes, apenas arbustos a volta da estrada. Com o calor extremo, a água quente e a falta de sombras pelo caminho a minha pressão baixou algumas vezes. Santas capsulas de sal que me acompanhavam. Parei algumas vezes para tomá-las ou tomar um repositor de eletrólitos com a água fresca da garrafa térmica que o Edinho carregava e guardava para os momentos de sufoco.

Os atrativos do Jalapão

O jalapão é maravilhoso e de uma beleza natural incontestável. Amei cada paisagem que passamos. Ficará pra sempre registrado em minha memória. Mergulhar nos fervedouros e sentir a água da nascente fervilhar nos pés. A beleza do local quase intocado. A simplicidade do povo que sempre nos recebia de braços abertos. As dunas do jalapão com uma areia num tom incomum e maravilhosamente dourado, os rios em que acampamos e nos banhamos todos os dias da viagem. A Cachoeira do Formiga, ponto alto da nossa expedição.

Cachoeira com água muito azul, com uma queda d'água gostosa e com uma temperatura mais maravilhosa ainda. Água quente se comparada aos rios que costumamos encontrar no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Odeio água fria, mas lá não precisava me preocupar, a temperatura da água era incrível, permitindo mergulhos ao amanhecer e a noite sem qualquer tipo de problema. 

No formiga virei criança. Sessões de fotos, mergulhos, brincadeiras e até carregar pedra no fundo da cachoeira enfrentando a correnteza. Foi um dia realmente especial. O jalapão mostrou ao que veio.

 

O Jalapão é Bruto e Lindo

 

Os perrengues

Jalapão Bikepacking
Bia se recuperando do fígado

Além dos perrengue normais que todo cicloturista vai enfrentar pedalando no jalapão, posso afirmar que fui premiada nessa viagem. Além de estar sentindo muito calor, bebendo água quente e enfrentando dificuldade com a bike para empurrá-la nos areiões que encontrávamos no caminho, tive um problema no fígado e alguns furúnculos para administrar. 

Num dos dias de pedal pesado quando já estávamos perto do nosso destino, com sede e com fome, resolvi que precisava de um up para chegar ao final. Resolvi tomar algumas balinhas de carboidrato que sempre uso nos meus treinos. Só que tinha um detalhe. As balinhas tinham ficado no bolso da minha blusa de pedal durante todo o dia. Só me dei conta que elas estavam fervendo quando as comi. Consequência: meu fígado foi para o espaço. Vomitei tudo que tinha e que não tinha direito. Nem água parou no meu organismo. Vomitei a bile a noite inteira e tive que enfrentar o dia seguinte de pedal bem fraca e desidratada. Mas, nada que em 2 dias não passasse. Melhorei e não tive mais problemas com relação a isso. Deixei as minhas balinhas para os treinos de triathlon (risos).

Furúnculos

O que realmente pegou foram os furúnculos. Eu tinha feito um quadro de furunculose aproximadamente uns 2 meses antes da viagem. Havia feito o tratamento com antibióticos e outros e acreditava que estava tudo sobre controle. Ledo engano. Estourou o primeiro numa das bandas do glúteo bem aonde pegava o selim. Tratei do jeito que deu. Adesivos de hidrocoloide e o máximo de cuidado. Mas, estourou outra, na outra banda do glúteo. A dor era imensa. Não tinha como pedalar sem dor. O jeito?! Continuar pedalando, esquecer a dor e curtir a paisagem. Fiz isso até o final. Fui forte e resisti. Mas, os furúnculos infeccionaram. Não quis tomar antibiótico porque eles me fazem muito mal. Não tinha remédios para o estômago e tomar o antibiótico me traria um problema forte de enjoos e mal estar que só prejudicaria ainda mais o meu pedal. 

A hora que não deu mais

No penúltimo dia antes de chegarmos ao nosso destino dormimos num lugar incrível. Jalapão Ecolodge perto do morro da Catedral. Eles tem uma super estrutura. Dormi num redário gostoso e pude tomar um banho com conforto num banheiro com espelho e melhores condições higiene. A situação do meu segundo furúnculo era crítica. A essa altura eu já sentia dor até para andar. Mesmo muito bem alimentada quando subi na bike para continuar o caminho meu pedal não rendia. Eu só sentia dor e a ausência de atrativos naturais no caminho só me desestimulava.

Já tinha terminado o trecho do nosso filme, 500 Jalapão Bikepacking. Era dia de pedalar até chegar num camping e no dia seguinte pedalar até o ponto de resgate. Já tínhamos desbravado o Jalapão e aproveitado tudo de melhor que ele tem a oferecer. Comecei a pensar na possibilidade de pegar uma carona e acabar logo com a tortura daquele dia.

Jalapao Bikepacking - A chuva chegando
Jalapao Bikepacking - A chuva chegando

Já tendo pedalado cerca de 20km com muita dor caiu um temporal. Com os raios e trovões tivemos que parar pelo caminho e montar acampamento. A chuva não permitia que a gente avançasse. Paramos, lanchamos e após a chuva resolvemos seguir viagem. Quando de repente barulho de carro e o Edinho grita: - Bia sua carona chegou. 

Carona

Eu meio atordoada entre sentir dor e querer levar a aventura até o final fiquei triste de ir embora. Mas, era hora de ceder, de aprender o limite e parar. Aceitei a carona e evitei 100 km de tortura. A carona me deixou em Novo Acordo, cidade aonde tínhamos combinado com o Alex da Jalapão Extremo, que seria o nosso resgate no dia seguinte. Arrumei um local para dormir, comi alguma coisa e deitei. Daí até o dia seguinte foi sentindo dor e febre. Tomei um analgésico e um remédio para febre além de um antibiótico que não me fez bem.

No dia seguinte Edinho e Lion chegaram antes do previsto e me encontraram ainda dormindo e febril para seguirmos para Palmas.

Conclusão

A viagem foi incrível!!!! Amei passar esses 14 dias pedalando pelo Jalapão!

Jalapão Bikepacking - Sua Casa é o Mundo
Jalapão Bikepacking - Sua Casa é o Mundo

Se sou louca?! Talvez, mas qual o problema?! Se toda a loucura do mundo se resumisse a amar esporte e se aventurar pela natureza, tenho certeza que o mundo seria muito melhor.

Se faço isso para acompanhar o Edinho? É claro que não! A gente junto faz uma dupla e tanto. Amo praticar esportes com ele e me aventurar com ele. Ele tem uma carga de influência muito grande no meu upgrade no esporte, mas não faço essas coisas porque ele gosta.

Quando eu conheci o Edinho eu já escalava, corria (pouco e mal, mas corria), já gostava de nadar (só estava fora de forma) e velejava. Hoje os esportes mudaram um pouco. O foco passou a ser o triathlon e com ele me sinto mais segura para desbravar o mundo. Ele é super safo para perrengues, tem um auto controle incrível, é experiente e saca muito de orientação.

Eu gosto muito de tudo, tenho uma ótima força de vontade e determinação para fazer tudo que eu me proponho. Logo, bolamos juntos as nossas aventuras e nos complementamos formando um belo casal aventureiro. Sem ele não faria muito do que faço, até porque a aventura outdoor é muito melhor e mais segura quando compartilhada, mas existem inúmeros grupos que se juntam pata viver essas experiências por aí e tenho certeza que eu acabaria inserida num grupo desses. 

Pedra Furada no Jalapão
Pedra Furada no Jalapão

Resumindo

  • O Jalapão é Bruto;
  • A natureza é maravilhosa;
  • O povo do jalapão é incrivelmente receptivo e acolhedor;
  • O perrengue me faz crescer;
  • Encarar os desafios me faz forte;
  • Essa foi a trip mais dura da minha vida;
  • Com certeza o Jalapão é um dos lugares mais bonitos que já conheci;
  • A amizade e o amor são os melhores presentes que ganhei nessa vida;
  • Qualquer pessoa que quiser pode se aventurar e encarar o desafio que quiser, basta de organizar e treinar para isso;
  • Encaro uma trip de cicloturismo só daqui a uns meses quando eu esquecer o perrengue que foi essa viagem e
  • Eu tenho memória curta!

Se ficou alguma dúvida sobre a trip do Jalapão e você quer mais algum detalhe leia o post que o Edinho fez sobre o Jalapão, ele tem link para todos os atrativos que visitamos. Se quiser saber mais sobe a viagem de bike por lá o post é o Jalapão Bikepacking. Se ainda assim precisar de ajuda entre em contato com a gente. Deixe uma mensagem ou me mande um email que estou a disposição para ajudar. Transforme sonhos em realidade!

 

 

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Criadora do @mulheresqueescalam. Se amarra nas atividades em contato com a natureza, seja velejando no mar ou escalando montanhas. Encontrou nos esportes uma terapia. Adora compartilhar e incentivar a prática de atividades saudáveis.

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Uma resposta

  1. Priscila
    | Responder

    Amiga, estava esperando ouvir esse relato pessoalmente mas não resisti e parei pra lê-lo (pq vc e o Edinho possuem talento pra escrever uma boa história!)…caramba, que perrengue! Mais uma vez vc me inspirando…pode doer, sangrar mas no final nosso sonho – seja em que esfera for: profissional, pessoal, amoroso, esportivo – sempre vale a pena! Valeu! Beijos!

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