Travessia Grumari x Pontal – emoção do início ao fim

Travessia Grumari x Pontal – emoção do início ao fim

Depois que se entra para a natação do mar um novo mundo se abre para gente. Sabe quando você olha um mapa e fica buscando um continente, um país, uma cidade, uma rua? Então, eu olho para as águas e fico buscando os trajetos pelo mar por onde eu gostaria de nadar.

E foi assim que escolhi participar de uma Travessia Grumari X Pontal, partindo da Praia de Grumari até a Pedra do Pontal. A proposta era superinteressante, uma Travessia de Confraternização, organizada por uma equipe que já tem o Know how de segurança e estrutura em Maratonas Aquáticas. Disponibilizariam vários barcos e dividiriam os 50 nadadores por níveis. 

Não pensei duas vezes. Era minha oportunidade de nadar naquele mar e seria mais um treinamento de longa distância, em busca de aumentar a minha resistência... O percurso era de 5.2 Km. 

A preparação para a travessia 

No dia anterior, resolvi me poupar e busquei descansar, apesar de, como a maioria dos atletas de esportes individuais, trabalhamos e muito, conciliando com nossos treinamentos. Nesse sábado, eu tive que trabalhar. 

Confesso que teria sido perfeito se eu tivesse deixado tudo pronto para o dia seguinte, mas bateu aquela preguiça e optei por tentar dormir cedo, já que o despertador tocaria 4h15. 

Deitar cedo, não significa dormir cedo. Acaba sendo sempre assim, véspera de competição ou de qualquer desafio é praxe aquele rola pra cá, rola pra lá, pega o celular, olha a hora e calcula a quantidade de horas de sono que só vai diminuindo.

Toca o despertador. Naquele momento é fácil desistir. Haja força de vontade. Mas o desafio foi escolhido, foram muitas abdicações até ali. Levanta e vai.

O dia da Travessia Grumari X Pontal

Dessa vez, fomos eu e mais dois amigos do mar. Somos um grupo muito grande que compartilha dessa paixão. Engraçado que quando a gente se encontra, um olha para cara do outro e nem precisa falar, a mensagem é “o que a gente está fazendo aqui? Por que escolhemos isso? ” Mas falamos e caímos na gargalhada. Como é bom ter amigos malucos!

Chegamos ao Pontal bem cedo, com tranquilidade para estacionar, se arrumar e pegar um Uber para a Praia de Grumari, local de partida.

Detalhe para um desleixo nosso: nenhum dos três prestou atenção que havia uma referência do local onde era a verificação e saída dos barcos. Rodamos quase meia hora no uber, parando, olhando a praia e perguntando sobre o local da saída dos barcos. Ninguém sabia. O sinal de celular, quem conhece a região, já sabe, não existia. E sem sucesso tentar falar com a organização. 

Até que um guardador informou que as pessoas que iriam participar estavam deixando o carro ali com ele e descendo na próxima entrada. Liberamos o Uber e descemos até a praia. A descida era daquelas bem irregulares, íngreme e com pedras. Meus amigos já olharam para mim “E aí, Ju? Consegue descer aqui? ” Como tenho esclerose múltipla, alguns movimentos ainda são bem complicados pra mim, mas explico tudinho a vocês num post que sai em breve!

Trail run Emerson e Edinho

O primeiro grande desafio do dia

Só consigo saber tentando. E lá fomos nós. Um segura daqui, o outro apoia dali. Desequilibrando um pouco. Pronto. Chegamos. Só que, aquele guardador nos enganou, não era ali. Ele achou que o carro era nosso e quis garantir o dinheiro do estacionamento. Ele sem guardar o carro e nós distantes da largada. Ninguém ficou feliz nessa hora.  

Fomos andando pela areia até o início da praia, onde demos de encontro às Pedras. De longe vi meu amigo Rafael, que foi na frente, passando por debaixo das pedras e depois voltando desolado. “Não é aqui, e sim na outra ponta”. E a hora passando...

De novo, eu tive que arrumar um jeito de ultrapassar aquela barreira. Na primeira parte das pedras, contamos com a ajuda de um banhista e consegui passar para o outro lado. Já no segundo acesso mais à frente, confesso que olhei para o mar e pensei: Mais fácil ir por ali. Me segurei nos braços e desci com a ajuda do Rafa, que estava do outro lado.

A saída estava marcada para 8h, já era 7h55 e nós ainda a caminho. Mas, como tudo na minha vida tem que ter emoção, veio mais um desafio. O Rafael foi na frente para avisar que estávamos chegando. Eu e minha amiga Joana tivemos que bolar uma estratégia: até a ponta da enseada, não conseguiríamos passar pelas pedras porque a maré estava alta. O jeito foi voltar para o asfalto e descer num outro acesso. 

Foi punk. Uma subida irregular e com muitas pedras e areia. Estava fazendo trekking! Ela me puxava quando eu conseguia me firmar, arranjei forças, nem sei de onde, para impulsionar as pernas. Tinha horas que eu estava com um braço apoiado em uma pedra, o outro puxando a perna esquerda (que tenho mais dificuldade) e Joana me amparando. Quando alcançamos o asfalto e olhamos para baixo parecia mentira. Olhamos uma para outra perplexas. Ela é habituada a fazer trilhas, mas foi a primeira vez que foi de “guindaste humano”.  Depois vimos o Rafael retornando com a notícia que deu tempo e que estavam nos esperando. Ufa!!

Trail run na floresta

A realização de mais um desafio!

Na descida para o local, vimos dois nadadores desistindo. Eu pergunto logo o porquê? Ainda mais depois de descer uma pirambeira, passar pelas pedras e ter que fazer uma mini escalada. A pessoa estava com pé de pato na mão, roupa de neoprene e respondeu que tinha esquecido um equipamento. Como assim? Deixa pra lá!Deu tudo certo. Mas quando colocamos o pé na água, descobrimos que quem estava sem equipamento erámos nós. Um gelo, congelante. E a gente “no pelo”. A pior parte foi colocar o rosto na água. Dói, bastante.

Inicialmente, teve um barco só para gente. Fomos os últimos a sair. A água estava clara e seguimos em direção à Prainha, onde seria a 1ª parada. Até os primeiros 2 km a gente levou numa boa, apesar do mar estar com bastante ondulação e com correnteza. Mas com o tempo aquele frio foi ficando insuportável. Várias pessoas desistindo, indo para os barcos e saindo do mar.

Foi bem tenso. Chega uma hora que as extremidades ficam dormentes e você só consegue pensar no incômodo. As vezes rola umas paradinhas para sacolejar as mãos e se certificar que os dedos ainda se movimentam. Tem que trabalhar muito a cabeça e buscar relaxar. Pensar no quanto falta para terminar é uma estratégia. A outra é nadar mais rápido e enfrentar com raça.

De repente, em torno do km 3,5 veio uma corrente quente. No começo a gente custa acreditar que é verdade. Acha que é passageiro. Eu chequei a pensar que minha reza tinha dado certo e que era um milagre. Não resisti. Literalmente parei e boiei um pouco. Precisava me aquecer. O barqueiro veio na minha direção, perguntando se eu estava bem. Naquela hora, estava me imaginando no meu chuveiro quentinho. Dei um ok para ele e disse: Só estou me descongelando um pouco.

Continuei, faltava pouco. A água voltou a esfriar. Eu intensifiquei as braçadas para diminuir o tempo de exposição àquela água gélida. E finalmente terminei.

A gente olha para trás e vê tudo aquilo que percorremos. As paisagens. Os pássaros. As montanhas. Valeu a pena. Sensação de dever cumprido! Mais um rabisco feito nesse litoral!

Depois relembramos todos os desafios que passamos e isso faz a vivência ser mais intensa e gratificante. O melhor é ouvir dos meus amigos que estão orgulhosos de mim e que viram o quanto a minha motivação pela natação me dá mais força, até para fazer uma escalada. Incrível, mas foi verdade!!!

Esse foi mais um traçado no mar. Já saímos de lá planejando os próximos!!!

Seguir Juliana Maia Vinagre:

Diagnosticada com esclerose múltipla aos 17 anos, chegou a ficar em cadeira de rodas, hoje encontra na natação um hobbies e grande trunfo de superação! Nadadora de águas abertas em busca de novos desafios e iniciando a sua trajetória como paratleta de natação em piscinas.

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